Matéria Vencida, 2006 #1

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As fotos de Marina Marchetti pedem que se pense com atenção a estranheza específica de sua composição. Á primeira vista, a foto com as figuras humanas que se banham e se movem por entre as rochas sugere uma alusão ao Jardim das delícias, de Hieronimus Bosch. Como a nossa memória cultural está sempre saturada de imagens já muito vistas e repetidas pela tradição, talvez fosse o caso. Mas me parece que se trata, se for o caso, apenas de uma alusão tangencial. O contraste entre paraíso e inferno, mais que marcado por toda a iconografia da tradição cristã, está ausente das fotos, que apontam, a meu ver, para outra direção do olhar. Olho com atenção as fotos de Marina Marchetti que a revista Santa agora publica, e penso em um tempo fora do tempo, que resulta do modo específico da composição das imagens e do efeito estético que daí resulta. Ao tempo histórico que as figuras humanas poderiam sugerir de imediato, se contrapõe um tempo mais longo e mais forte, a meu ver o próprio tempo da longuíssima duração geológica das rochas, que ocupam sempre grande parte do campo visual. Essa maneira de composição que superpõe os tempos desloca a percepção das figuras humanas, assim como das plantas, que ficam como que desamparadas diante da presença forte das rochas, com suas fendas, fissuras, relevos e reentrâncias. Efeito estético que é acentuado pela presença dos granulados que derivam do mofo, pontilhando com firmeza as imagens. E ameaça, imaginemos, tomar conta de todo o campo visual, dissolvendo de vez as figuras que se vê. Com isso acentuando muito a fragilidade e o desamparo das figuras humanas. Na foto 1, as figuras humanas muito claras que se banham ou se situam ao longo das rochas, de fato representam um movimento ascendente, que pode ser situado nas águas escuras, até chegar ao topo da foto. Caso se queira, uma espécie de paisagem do paraíso perdido, solta no vazio, ao contrário das imagens da queda, da vida profana e da redenção, que apontam para outro tipo de narrativa. É como se as figuras humanas, desamparadas e muito claras, a qualquer momento pudessem desaparecer da visão, deixando em seu lugar apenas o vazio. Na foto 2, a força do campo visual aponta primeiro para as massas rochosas e o granulado do mofo, em seguida para a árvore ressecada e árida, e só depois o olho se volta para duas mínimas figuras, um pouco à direita e abaixo do centro da foto. Seriam o quê? Insetos? Abstrações reforçando o contraste? Ou então, como imagino, duas pequenas figuras humanas, uma delas podendo ser a de um homem vestido de linho branco, estranhamente desamparado e quase invisível diante da presença maciça da matéria e do tempo geológico? A força da foto, penso eu, deriva justo dessa contraposição de tempos, do tempo mais breve da vida e da figura humana, por definição fugaz e passageira, e o tempo da longa duração e formação da matéria rochosa. Também aqui, o desamparo é visível, sendo possível acrescentar ao desamparo uma curiosa forma de solidão serena, em que está ausente algum plano divino de salvação. A foto 3 tem o mesmo princípio de composição – a presença forte da matéria rochosa e do tempo geológico, acentuada pelo granulado que resulta do mofo, mas nela se acrescenta, digamos assim, um efeito estético lírico, a seu modo muito bonito, que é dado pela presença, mais para o alto, um pouco à direita da foto, de flores brancas e vivas. Cabendo acrescentar que lirismo muito frágil e delicado, apenas um traço fugaz da beleza em meio à força compacta da matéria rochosa. Na foto 4, como as outras tendendo de modo marcado à abstração, o contraste da composição monta um efeito estético a meu ver também lírico, de uma beleza fugaz e desamparada, que se vê na figura da bailarina de sapatilhas, com os braços erguidos, como que dançando à beira do abismo. Também aqui, a foto aponta para um tempo fora do tempo, já que a figura da bailarina está deslocada de qualquer contexto cotidiano que a situasse e referisse em relação à duração histórica como a conhecemos -o teatro, o espetáculo, o ensaio, o camarim, o bastidor, a rua -que indicariam outra direção do olhar e outra relação da imagem com o tempo. O modo como Marina Marchetti compõe suas fotos desfaz os referentes imediatos, desloca a direção do olhar, acentua a dimensão imaginária do campo visual, e convida a pensar um conjunto forte de percepções e relações. A seu modo, fotos que escapam da saturação de imagens gastas que se repetem e não cansam de se repetir no mundo em que vivemos. Um pouco ao modo de Gaston Bachelard, imagens que matam a imaginação. Não é mesmo o caso dessas fotos, que abrem justo a brecha por onde a imaginação pode passar. texto publicado na Revista Santa #3

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Descrição

Impressão em papel Fine Art Hahnemuhle de algodão: PhotoRag 308gsm, fosco e liso. Durabilidade de até 250 anos.

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